Famílias amargam dor e impunidade um ano após chacina em Santana

  • Familiares do jovem Arinaldo dos Anjos, uma das quatro vítimas
    Familiares do jovem Arinaldo dos Anjos, uma das quatro vítimas Correio de Santana
  • Ozeias Pinheiro tocava bateria na igreja com seu irmão
    Ozeias Pinheiro tocava bateria na igreja com seu irmão Arquivo Familiar
Deus há de nos fazer Justiça um dia —   Miguel Souza Pinheiro, pai de Ozeias

Um ano depois da chacina que chocou a sociedade santanense, a 17 km da capital Macapá, o Correio de Santana conversou com as famílias de dois dos quatro jovens executados na noite de 27 de outubro de 2016, no bairro hospitalidade. Os pais das vítimas ainda amargam a dor da perda e cultivam o sentimento de revolta e injustiça. Até hoje, os suspeitos não foram, sequer identificados.

Mãe de Arinaldo Anjos Dias, um dos quatro jovens assassinados, a aposentada Maria de Lourdes dos Anjos, de 62 anos, não se sentia bem horas antes da barbárie. Hipertensa, ela passou o dia com mal-estar. Era como se pressentisse que algo de ruim estava por vir.

Naquela noite, Maria de Lourdes havia ido, na companhia da filha, irmã de Arinaldo, em busca de atendimento médico no Posto de Saúde da Fazendinha – distrito macapaense, próximo a Santana. Convencida por parentes, decidiu passar a noite na casa de uma irmã, em Fazendinha. Depois de medicada, ela dormiu. Foi acordada às 2h da madrugada.

“Minha filha me acordou e pediu para eu tomar um copo de água, pois iríamos sair. Eu perguntei: ‘aconteceu alguma coisa? Para onde vamos essa hora?’. Ela não queria me contar. Disse que o ‘Bico’ [como Arinaldo era chamado pela família] havia sofrido um acidente de moto e estava no hospital. Senti no peito uma dor muito forte. Foi só o meu marido que teve coragem de me contar, quando chegamos em Santana”, relembra Maria de Lourdes.

A mesma dor bate no peito de Antônio Dias, pai de Arinaldo. Ele foi o único que falou com o filho depois de baleado e antes dele morrer no Hospital Estadual de Santana. “Eu só pedia para ele ficar calado que a ajuda ia chegar. Ele, então, desmaiou e morreu no hospital. Eu já entreguei pra Deus. Peço justiça, é só o que eu espero. Não sei o que o meu filho fez para essas pessoas, ele não tinha inimigos”, sofre o pai do rapaz assassinado aos 20 anos.

A família conta que Arinaldo era apaixonado pela dança. Participava de grupos juninos e outros eventos que envolvessem coreografias. Hoje, restam apenas as lembranças de um jovem que era considerado feliz e muito próximo aos pais. “O que mais me dói é que meu filho era uma pessoa muito querida, não era de arrumar confusão com ninguém. Então, porquê? Só peço justiça”, questiona a mãe do rapaz executado.

Religioso

Vizinho e amigo de Arinaldo, Ozeias Lacerda Pinheiro, 19 anjos, também gostava de música, mas num ritmo religioso. Não era para menos: seus pais tomam conta de uma igreja evangélica até hoje. Assim como seus irmãos, Ozeias participava das programações religiosas com os pais. Ele era baterista da banda da igreja.

Naquela noite, participou normalmente das atividades. Tocou ao lado do irmão, que é guitarrista. Da igreja, o jovem foi para casa. Lá, jantou e, sem saber que era a última benção, despediu-se dos pais e foi para a esquina conversar com os vizinhos, o que era uma rotina. Naquela noite, ele encontrou com Bruno, Jacildo e Arinaldo, que estavam bebendo cerveja no lugar em que sempre se encontravam para jogar conversa fora.

A igreja e a residência da família ficam localizadas a poucos metros de onde ocorreu a chacina. Por isso, é difícil não lembrar. Todos dias, o pastor Miguel Souza Pinheiro, pai de Ozeias, tem que passar, obrigatoriamente, pelo local do crime para abrir a casa de oração que toma conta. Ele diz que não consegue deixar de olhar para os buracos deixados pelas rajadas de tiros com que os assassinos atacaram os jovens.

“É muito difícil passar por aqui e ver que até agora esses assassinos continuam soltos. Foi praticamente na porta da minha casa que mataram meu filho. Eu já estive várias vezes com o delegado e sei que a culpa não é dele, pois ele tem muitas dificuldades para investigar pela falta de estrutura que dão para ele trabalhar”, lamenta o pai de Ozeias.

Apesar disto, ele ainda não perdeu a esperança de um dia ver os assassinos atrás das grades. Ele conta com a fé para continuar aguardando a punição para os culpados. “Deus há de nos fazer Justiça um dia”, tenta confortar-se.

Como o marido, Maria Santana, mãe de Ozéias, sofre todos os dias. Às vezes, ela se flagra distraída, olhando para a bateria que o filho adorava tocar na igreja. “Não existe um dia ou uma noite que eu não chore. Eu procuro sempre lembrar dele nos momentos que ele tocava junto com o irmão, que é guitarrista da igreja também. Ele nos faz muita falta, não merecia o que fizeram”, lamenta Maria Santana.

A equipe de reportagem do Correio de Santana não conseguiu falar com a família dos irmãos Bruno e Jacildo Brito. Oriundos do Norte do Estado, eles moravam em Santana com uma irmã mais velha, que depois do assassinato largou tudo e voltou para o município de origem, segundo a vizinhança onde ocorreu a chacina.

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